Vista do Pinhão no ano da chegada do comboio à vila

 

 

 

Origens do Pinhão

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A história do Pinhão, apesar de curta, é epopeica. Trazemos aqui um conjunto de pequenos textos que contam os principais

passos desta vila, desde a sua origem até à actualidade. Sobre a história contemporânea, consulte o arquivo disponível aqui.

 

 

Caracterização do Espaço | Das origens ao inicio do séc. XX | A Criação da freguesia | Actualidade: da vila aos nossos dias

 

Textos: Maria da Conceição Madureira | Fotos: www.pinhao.com.sapo.pt

 

 

 

Caracterização do Espaço

O Pinhão é hoje freguesia do concelho de Alijó, situado na margem direita do Rio Douro, ocupando uma área de cerca de 300 hectares, tendo como freguesias limítrofes Vale de Mendiz, Vilarinho de Cotas, Casal de Loivos, Valença do Douro, Covas do Douro, São Cristóvão do Douro, Gouvães do Douro e Ervedosa do Douro. O Pinhão dista de 17 km da sede de concelho e 38 km da sede de distrito, Vila Real.

O topónimo desta freguesia justifica-se pelo facto de aí se encontrar a foz do Rio Pinhão, afluente do Douro. O rio Pinhão nasce na aldeia de Raiz do Monte, na freguesia de Mina de Jales, atravessando, depois, diversas localidades como Souto Escarão, Pinhão Cel, Balsa, Torre de Pinhão, Parada de Pinhão, Cheires, Vale de Mendiz, São Cristóvão, desaguando no Pinhão.

Trata-se de uma território pequeno na confluência com os rios Douro e Pinhão no extremo sul do distrito de Vila Real, em contacto com o de Viseu. A reduzida área advém do processo de formação ocorrido em menos de setenta anos.

O Douro e a montanha dominam a paisagem. O rio corre largo e profundo, consequência da barragem que lhe prende as águas a jusante; nos dias de calmaria é como se fosse um espelho que reflecte o azul do céu e o branco das nuvens, tudo no meio de um silêncio entrecortado, aqui e além, pelo som de uma motocicleta ou de um automóvel à distância… ou pelo apito do comboio.

Em muitos aspectos o Pinhão sempre se distinguiu das aldeias e vilas em redor, até mesmo daquela que seria a sua sede de concelho. Se o Pinhão tem uma área pequena, onde está a razão de tão próspero crescimento? O elemento geográfico foi determinante porque foi ele que chamou e fixou as pessoas, numa primeira fase e que mais tarde impediu o seu escoar, no refluxo dos anos 70 do século XX. Enquanto a sede de concelho, Alijó, perdeu ininterruptamente população entre 1950 e 2001, cifrando-se numa queda de 38% o Pinhão regista um acréscimo entre 1940 e 1960 resultando entre 1950 e 2001 numa quebra de menos de metade da registada em Alijó, 16%. A explicar este fenómeno, está por certo o forte incremente na área da administração e dos serviços que se verificou no Pinhão. Cento nevrálgico de primeira importância na região vitícola do Douro, essa condição permitiu refrear os impulsos migratórios que ao longo das últimas décadas têm assolado o interior do território nacional. Com o desenvolvimento de novas actividades, nomeadamete de turismo e lazer, talvez o Pinhão tenha encontrado uma resposta capaz de fazer face à crescente desertificação do Interior em proveito do Litoral.

O brasão é constituído por um escudo de prata, uma ponte férrea de três arcos de vermelho, movente dos flancos e assente sobre um ondulado de azul e prata; em chefe uma copa cosida de ouro acompanhada de dois cachos de uva de púrpura folhados de verde. Coroa mural de quatro torres de prata. Listel branco, com a legenda a negro: "VILA do PINHÃO". A bandeira é esquartelada de verde e amarelo, cores do concelho de Alijó. Cordão e borlas de ouro e verde. Haste e lança de ouro. O selo  em uso é circular, com as peças do escudo sem a indicação de cores e metais, tudo envolvido por dois círculos concêntricos, onde corre a legenda: "JUNTA de FREGUESIA do PINHÃO".

Brasão da freguesia do Pinhão    Selo - [clike para ampliar]

Figuras 1 e 2 – Brasão (esquerda) e selo (direita) da Vila do Pinhão

 

Bandeira da freguesia do Pinhão      Estandarte da freguesia do Pinhão

 

Figura 3 e 4 – Bandeira para hastear em edifícios, com 2 metros por 3 metros (esquerda) e estandarte para cerimónias e cortejos de metro por metro (direita)

 

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Das origens ao inicio do século XX

Ao contrário do que possa parecer, o Pinhão nasceu na margem direita do rio homónimo num sítio que em 1134 era lugar da freguesia de São Pedro de Celeiros de Panóias e que mais tarde integrou o concelho de Gouvães do Douro. A construção da ponte em cantaria em finais do século XVII, inícios do século XVIII foi a principal responsável para o alastramento do lugar para a margem esquerda do rio Pinhão e direita do rio Douro. O telégrafo encerrado em 1875 é prova de que a esta data este processo de deslocalização estaria já em avançado estado de desenvolvimento.

 

                                                                                                                           Fonte: [1]

                   

Figuras 5 e 6 – Lugar do Pinhão e ponte de cantaria sobre o rio homónimo (esquerda) e Ponte de cantaria na actualidade (direita)

 

O lugar que anos mais tarde se tornaria a próspera freguesia do Pinhão, não era mais do que um povoado de gentes ligadas ao rio e ao transporte de pessoas e animais entre as margens do Douro e do Pinhão. Só com a demarcação do Marquês de Pombal daquela que é a mais antiga região demarcada do mundo é que o Pinhão começa a definir a sua identidade.

Antigamente chegava-se a esta povoação por uma via romana que ligava Sabrosa à margem direita do Rio Pinhão, ou por Murça, passando por Favaios, Vale de Mendiz, Vilarinho de Cotas e Casal de Loivos. Descia-se, então, a encosta até à zona da praia, onde se armazenava tudo o que se destinava ao embarque ou desembarque nos barcos rabelos, no rio Douro. Mais tarde, essa estrada foi apelidada de “Estrada Real”.

As margens do Douro cobriram-se de vinha que viriam a originar o fantástico vinho do Porto, mas só a partir de 1678 é que surgiu essa designação por iniciativa dos primeiros ingleses que chegaram à região.

É a partir de 1875-1880 que o Pinhão se começa a desenvolver definitivamente já na margem esquerda do rio Pinhão à volta do lugar onde em 1880 chega o primeiro comboio procedente do Porto. Para o desenvolvimento do Pinhão muito contribui o facto de ter sido estação terminal de comboios durante 3 anos. Por decreto-real a linha do Douro terminaria mesmo no Pinhão com a extensão a Espanha decidida mais tarde.

 

                                        Fonte: Arquivo Fotográfico da CP/REFER

Figura 7 – O Pinhão no ano da chegada do comboio (1880)

 

Os 300 habitantes que então estavam estabelecidos rapidamente duplicaram com o acesso às novas acessibilidades e a privilegiada ligação ao Porto. Além do comboio surgirão diversas diligências a mais importante procedente de Murça. Rapidamente da linha e para norte ao longo da margem esquerda do rio Pinhão. De todos os lados chegavam carros de bois com pipas de vinho que seriam transportadas pelos rabelos mas também por comboio. A construção das barragens, já em pleno século XX, iria traduzir-se no fim do rabelo e culminar no expoente máximo do monstro de ferro. Naturalmente as populações iam-se fixando naquele entreposto fluvial, ferroviário e viário de características geográficas centrais para toda a região. Os rabelos, o vinho, a areia e a pesca eram o sustento das gentes que depois de verem o comboio em 1880 assistiram à construção de uma ponte metálica sobre pilares de cantaria erguida em 1906 com 207 metros de comprimento e 25 de altura sobre a corrente de então. A localidade tornou-se rapidamente pólo incontornável para o desenvolvimento de qualquer actividade económica num raio de algumas dezenas de quilómetros. 1880 e 1906 determinam historicamente o sucesso do lugar de pescadores que mais tarde se formou vila. O Pinhão tornava-se no início do século XX num importante entreposto de Vinhos Finos que escoava o produto até Gaia pelos barcos rabelos.

A localização privilegiada do Pinhão e os meios de transporte que aqui confluíam contribuíram de sobremaneira para o desenvolvimento desta pequena urbe que rapidamente alcançou o estatuto de Centro Económico Geográfico da Região Demarcada do Vinho do Porto. Não é por acaso que Miguel Torga se refere ao Pinhão nestes termos: “(...) Mas existe uma capital deste feudalismo disperso; uma polarização urbana do tresmalho murado de cada senhor: meia dúzia de casas banais, uma estação com azulejos que reproduzem em mísero a grandeza do cenário, e adegas sombrias, cavadas no chão como furnas – o Pinhão. O cósmico e cosmopolita Pinhão!”.

Figura 8 – O Pinhão na actualidade

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A criação da freguesia

O Pinhão foi elevado a freguesia no dia 23 de Setembro de 1933, pelo Decreto de Lei n.º 23057, tendo sido elevado a vila a 20 de Junho de 1991, tal como se pode comprovar no Diário da Assembleia da República, I Série, n.º 96, do dia 21 de Junho do mesmo ano. Até aí, o lugar do Pinhão fazia parte da freguesia de Casal de Loivos, concelho de Alijó. Mas as transformações e crescimento por demais evidente e largamente demarcado das restantes freguesias e até mesmo da sede de concelho incutiu no espírito dos locais a necessidade física de uma autonomia administrativa. António Manuel Saraiva, Luís Paulo Ribeiro e Américo da Silva Barros foram alguns dos responsáveis pela concretização do sonho e lideraram a Comissão Instaladora da Freguesia, com o primeiro a tornar-se o primeiro Presidente da Junta de Freguesia do Pinhão.

António Manuel Saraiva nasceu no ano de 1897 no dia 15 de Abril na freguesia de Ervedosa do Douro no concelho de São João da Pesqueira e distrito de Viseu. As suas habilitações literárias não o impediram de se tornar uma das figuras mais influentes na Vila do Pinhão afirmando esta pequena localidade na região e já mesmo no país.

A sua família era composta pelos pais, duas irmãs e ele próprio tendo habitado o número 2 da Rua de Santo António durante a sua infância tendo-se mudado para o Largo Dr. Duarte Lobo mais tarde após o seu casamento.

António Manuel Saraiva ostentava uma corpulência e altura invejáveis sendo muito elegante na postura e socialização. Conta quem o conheceu que era amigo dos pobres, bom pai e uma belíssima pessoa. Sempre o caracterizaram as botas desapertadas com que ia apanhar o comboio. Gostava de ajudar os pobres e foi comerciante de profissão.

Em prol do Pinhão criou condições e fomentou diversas actividades e obras. Antes de 1933, criou a Igreja, construiu o cemitério e colocou a electricidade. Em 1933 elevou o Pinhão a freguesia e no ano seguinte colaborou na constituição da Casa o Povo, a primeira em todo o distrito de Vila Real. Em 1936 expropriou as minas do Fontão a José Beleza de Andrade. Em 1937 pediu a criação do Instituto do Vinho do Porto e no ano seguinte o Pinhão teve saneamento e fontanários públicos com água potável. Estes apenas alguns os muitos e marcantes feitos daquela que é, sem margem para qualquer dúvida, a maior figura impulsionadora do desenvolvimento do Pinhão e o principal responsável pela tão grande crescimento em apenas 100 anos. A população prestou-lhe homenagem atribuindo o seu nome à principal rua, Rua António Manuel Saraiva.

Nas comemorações dos 50 anos da freguesia foi lapidada uma medalha em sua homenagem e procedeu-se ao processo formal de nomeação da rua principal.

È importante frisar que a estação ferroviária do Pinhão foi valorizada com 24 magníficos painéis de azulejos policromados, nos quais se descreve a etnografia da região. Trata-se de um precioso conjunto concebido em 1940, mercê da Junta de freguesia local, em particular de António Manuel Saraiva e do Instituto do Vinho do Porto.

Fonte [1]

            

Figuras 9 e 10 – Dois dos vinte e quatro magníficos azulejos policromados na estação da REFER do Pinhão

 

A partir de 1942 o Pinhão dispõe também de atendimento médico a tempo inteiro nas instalações da Casa do Povo sendo o primeiro clínico, o Dr. Duarte da Fonseca Lobo. O reconhecimento aos cuidados prestados por esta ilustre figura do panorama social pinhoense culminou com a substituição da designação do Largo da Trindade por Largo Dr. Duarte da Fonseca Lobo. Só a 28 de Novembro de 2001 um outro médico, então também presidente da Câmara Municipal e Alijó, Dr. Joaquim Cerca, inaugurou as instalações definitivas da Extensão de Saúde do Pinhão do Centro de Saúde de Alijó onde actualmente presta consultas em complementaridade com a Dr. Isabel Freitas.

É o ano de 1942 que marca também a chegada da Guarda Nacional Republicana que só em 1986 teve direito a instalações próprias, vinte anos depois votadas ao abandono pela saída constante dos efectivos ao ponto de se ter tornado obsoleto dizer que o Pinhão dispõe de um posto da GNR.

Em 1966 o Pinhão tem o primeiro banco e em 1976 surge a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Pinhão.

Para a Igreja o Pinhão permaneceu tempo demais dependente de Gouvães do Douro, apesar de civilmente já ser do concelho de Alijó. É a 1 de Fevereiro de 1959 que o Pinhão adquire independência canónica assumindo Nossa Senhora da Conceição como padroeira utilizando uma capela que já existia mesmo antes do aparecimento da freguesia.

 

                                                                                                                                                                                                                     Fonte [1]

Figuras 11 – Aspecto do Largo da Estação do Pinhão nos anos 50

 

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Actualidade: da vila aos nossos dias

O próspero desenvolvimento do Pinhão levaria a que em 1991 se atingisse outro marco importante de autonomia administrativa: a criação da vila. As necessidades básicas, os serviços essenciais e o clima de prosperidade económica foram os argumentos determinantes para que a Assembleia da República proclamasse a criação da Vila do Pinhão. A elevação à condição de vila concretizou-se graças à iniciativa do deputado Daniel Bastos e tornou-se realidade a 20 de Junho de 1991, coincidência ou não tal acontece sob o mandato da Junta de Freguesia liderado pela filha do homem que em 1933 trouxe a independência às gentes pinhoenses.

Hoje, a maior parte da população do Pinhão vive do comércio nas áreas de produtos alimentares, vestuário, calçado e hotelaria. Os serviços (empresas vitivinícolas, escolas, bancos, Junta de Freguesia e Centro de Saúde) empregam também algumas dezenas de pessoas. A indústria e agricultura completam o quadro económico da vila. Principalmente, as gentes desta simpática vila dividem-se entre os sectores primário e terciário, apesar da produção vinícola ser o grande motor da vila. No domínio do sector primário, salienta-se a produção do Vinho que é, depois exportado, levando o nome de Portugal aos quatro cantos do mundo.

As empresas agrícolas, visando a obtenção de excelentes vinhos, de aromas intensos e de cores com identidade própria, continuam a investir em novas plantações de vinha, com castas de especial qualidade. Desta forma, proporciona-se a fixação da população e contribui-se para o desenvolvimento da freguesia, uma vez que se torna necessária a existência de diversos serviços fundamentais tais como os correios, transportes, bancos e serviços públicos administrativos.

É o conjunto de realidades tão dispares e ao mesmo tempo integradas que levou a UNESCO a reconhecer, a 14 de Dezembro de 2001, que se está perante um espaço único de paisagem humanizada harmoniosamente integrada no meio físico. Todo o processo de candidatura começou no Pinhão, a 26 de Junho de 2000, com a assinatura do protocolo de compromissos entre 21 autarquias e 23 entidades públicas que culminaram na atribuição do título de Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial.

A história do Pinhão não pode surgir separada do Rio Douro, que nasce na Serra de Urino, em Espanha e desagua em São João da Foz, no Porto. Este curso de água tão importante para a economia da região, tem o comprimento de 927 km, dos quais 330 em território luso, sendo a sua bacia hidrográfica detentora de uma área de 98370 quilómetros quadrados.

No fundo, a história do Pinhão e das suas gentes é a história da conquista e afirmação de uma posição de destaque e liderança na região que o envolve. A agricultura, solidamente implantada e assente em métodos modernos e dinâmicos não foi afectada pela integração de Portugal na Europa, antes beneficiou com esse facto. O comércio, devidamente inserido no contexto local e regional, assumiu ao longo do tempo cada vez mais importância, correspondendo às expectativas da área envolvente. A industria, domínio onde pontuam alguns grandes empreendimentos, encontra-se precatada de acordo com as melhores técnicas de gestão e ultimas inovações tecnológicas.

 

Figura 12 – Vista Geral do Pinhão num dia tão nublado quanto o futuro

 

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Bibliografia

[1] – LOBO, Maria Lucília da Saraiva; A Alma do Douro: Pinhão; 1ª Edição; Calcorrear, Pinhão 2004

[2] – SILVA, José Ribeiro; Os Comboios de Portugal – Do Vapor à Electricidade – Volume I; 1ª Edição; Mensagem; Queluz 2004

 

Vila do Pinhão - Património Mundial da Humanidade

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